sábado, 17 de março de 2012

ASFALTO DO NO JARDIM NOVO PANORAMA – MAIS UMA OBRA CLIENTELISTA E ELEITOREIRA

Os CCs da atual gestão da prefeitura de Sarandi enchem (R$$) a boca para alegar que todos que corajosamente apontam os problemas desta administração não se agradam com nada, são filhote desse ou daquele político etc. Mas eu vou deixar para leitores tirarem as suas próprias conclusões. Abaixo relaciono algumas fotografias da obra de asfaltamento do Jardim Novo Panorama. Como o leitor deve saber, as vias deste bairro são feitas com paralelepípedo. O estimado leitor deve saber também das enxurradas que descem por este bairro, chegando furiosas no Parque Alvamar, onde invadem casas, destroem casas e vitimam seres humanos.

Pois bem, uma grande obra está sendo concluída para resolver o problema destes dois bairros. Finalmente, enquanto alguns pensavam que morreriam ser ver asfalto em frente a sua casa, o caminho preto chegou. Pasmem! Não foi feito sistema de galeria de águas, rede de esgoto é produto de luxo e o massa asfáltica foi jogada sobre as pedras. Que o leitor faça a sua própria avaliação e conclua aonde vai parar as aguas pluviais.

No entanto, o mais belo trabalho foi feito na Rua Júlio Limonta, no trecho que faz divisa com Maringá. Ali simplesmente jogaram a malha asfáltica sobre o cascalho irregular. As lombadas e depressões no desenho do solo foram mantidas e tampouco se fez o meio-fio. Lamento. Nos levantamentos que tenho feito sobre o planejamento urbano de Sarandi, este se define pela ausência de qualquer planejamento racional, pelo crescimento desordenado do espaço urbano e pela administração clientelista e autoritária da pauperização deste povo. Marx falou sabiamente que os fatos históricos acontecem duas vezes, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Cabe a cada cidadão Sarandiense tomar a sua história nas mãos e escolher romper com este farsa ou dar seguimento a ela, mantendo-se submisso a esta política que vem sendo feita na nossa cidade.























quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

PREFEITO CARLOS DE PAULA NÃO RESPEITA NEM ESTUDANTES DA EJA

“A educação sozinha não transforma
a sociedade, sem ela tampouco a
sociedade muda” (Paulo Freire)


Que uma das maiores virtudes do atual prefeito de Sarandi, Carlos de Paula, é não ser democrático todo mundo sabe, mas o difícil de mensurar é ate aonde vai sua capacidade de tratorar tudo e todos para atingir seus objetivos, que também é sabido por todos, isto é, a reeleição a qualquer custo.

Hoje infelizmente participei de um incidente lamentável com o prefeito. Fui acompanhar uma reunião na qual o prefeito convidou os moradores do Jardim Novo Independência para falar tratar sobre o asfaltamento da região. Ótimo. Mas como sei que cada reunião dirigida pelo prefeito é um circo onde, lógico, ele é personagem principal, não era de se esperar que seu cajado autoritário fosse agir mais uma vez.

Não quero aqui tratar do déficit democrático e não participativo de seu governo, nem da forma manipuladora e demagógica que ele dirige as suas reuniões. Só para registrar, o prefeito pede votação às suas propostas sem o menor debate, sem estudos técnicos e sociais sobre a obra, o prefeito simplesmente fala que é bom e pede pra que quem concorde levante mão, em meio a confusão, o povo gentil simplesmente ergue o braço. Na avaliação do prefeito isso é ser democrático. Uma das palavras dele hoje foi “ta vendo, isso que dá ser democrático”, ao se referir a uma proposta “aprovada” na reunião.

Mas escrevo para relatar que o prefeito Cara de Pau, digo, Carlos de Paula não respeita nem mesmo os estudantes da Educação de Jovens e Adultos. Chegando a escola reparei que havia pessoas, na maioria senhoras, com cadernos abertos sentados às carteiras em uma das salas de aula da Escola Municipal Yoshio Hayashi. Olhei bem e não acreditei que fosse uma aula. Viro-me então e pergunto a um guarda e ele confirma, são alunos estudando. Nesse ínterim o prefeito passa por nós, então aproveito e o indago se ele não respeita os alunos que estão estudando. Muito educado, ele segue andando e me xinga, as palavras deles são impublicáveis e prefiro joga-las ao lixo ao invés de disseminar tolices por aí. Mas gira em torno disso “ah, vai se f... seu f.....”.

É obvio que fiquei chocado e revoltado. Como professor que sou e sei do quanto é problemático trabalhar em um ambiente inadequado, sobretudo com o alto barulho dos gritos “eleitoreiros” do mestre de cerimônias da prefeitura, amplificado pelo som em volume máximo. Fiquei embasbacado. Mas como o que está ruim pode piorar, o capataz do senhor prefeito, o ilustre vereador Ailton Machado, veio me advertir. Segundo ele eu estava desacatando a autoridade do prefeito. Claro que meu sangue é quente e eu respondi a altura, inclusive no tom da voz (confesso, gostaria de ter sangue de barata em momentos como este), e aproveitei pra dizer algumas verdades a ele. Se sentindo desrespeitado, o capitão do mato disse que ia chamar a polícia, óbvio, logo ele se dissuadiu dessa ideia em instantes.

Mas enfim, qual é a moral da história? A realidade é que este governo está preocupado demais em enfiar goela abaixo da população as suas obrinhas e angariar votos que se esquece de que em Sarandi existe um povo que desde que esta região foi ocupada vem sofrendo com toda sorte de preconceito, miséria, discriminação, ausência de saúde, educação e equipamentos públicos de qualidade. O prefeito não é capaz nem sequer de notar que existem estudantes. E que muitas vezes eles são adultos que não tiveram oportunidade de estudar quando crianças. Que precisam trabalhar o dia todo e se sacrificar no ensino noturno. Mas, claro, o palanque eleitoral é mais importante que qualquer estudante; onde já se viu, por causa de semianalfabetos o senhor prefeito deixar de realizar sua “democrática” e “participativa” reunião. Claro, neste caso, democracia e participação significa erguer a mão e referendar o que já foi decidido “cientificamente” pela ambição do senhor prefeito.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Vencedor e Vencido

Eu acho curioso que nesse jogo da vida em sociedade o vencedor não consiga entender o vencido. Aos olhos do vencedor, o vencido não passa de um radicalista, cuja mágoa, raiva, revolta, não passa de sentimentalismos infundados. O vencedor cega-se no que tange a toda opressão, todo sofrimento e todo silenciamento que é imposto ao derrotado. Neste contexto, o perdedor aparece como um fracassado, incapaz de fazer coisas boas e triunfar.
Ao vencedor é impossível compreender o mundo do vencido, já que este foi desenhado por meio do sofrimento, da dor, da humilhação, coisas que, na condição de ganhador, o vencedor jamais experimentara.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

SOBRE PRECONCEITOS

Existe preconceito por apenas um motivo: por medo daquilo que não conhecemos. Por isso construímos monstros, demonizamos as pessoas e as consideramos erradas. Quando julgamos uma pessoa, por exemplo, como promíscua, erotizada, imoral, na maioria das vezes estamos sendo preconceituosos, porque não compreendemos a forma como aquela pessoa concebe o mundo. É por isso que nossa sociedade tem preconceitos contra ateus, negros, homossexuais, indígenas, pobres, nordestinos etc. O preconceito é fruto do desconhecimento. Sobre específico a questão homoafetiva, o preconceito vem de uma resíduo social que deprecia tal comportamento e acabamos incorporando isso. Mas quando passamos a ter um amigo, um irmão, um confidente, um aluno que sofre ultrajes, humilhação, desprezo por algo que os demais julgam inferior, mas que pra ele é uma condição de vida, nossa visão a respeito muda. Só é possível achar inferior um comportamento, no caso, homoafetivo, por desconhecer seus dramas ou, então, por fazer, deliberadamente, uma escolha contrária (e por isso violenta, ainda que do ponto de vista simbólico) a estes seres humanos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Sobre a cachorrinho da enfermeira!

Eu preciso desabafar ... este fenômeno do cachorrinho da enfermeira que, aos olhos da opinião pública, é um verdadeiro demônio tem me irritado. Vivemos numa sociedade em que as pessoas são alimentadas por fenômenos e, de vez em quando, recebemos uma dose de indignação virtual imobilista. Estas pessoas esbravejam, via rede social, é claro, mas esquecem de todos os horrores cometidos todos os dias contra os seres humanos, a fauna, a flora e o meio ambiente. Como a pauta da vez, vou recomendar o vídeo Terráqueos. Ele mostra as formas brutais pelas quais os seres humanos oprimem os animais. E o pior, nós participamos ativamente disso. Recomendo o documentário, que pode ser abaixado por este link:

http://www.megaupload.com/?d=Z8OU5W5P

Nós não somos seres "malvados como a maldita enfermeira", [aliás, até parece que ela é única que mata animaizinhos], mas não deixamos de ser cúmplices de horrores como os retratados no documentário. Ótimo que sejamos capazes de nos sensibilizar contra a maldade, é isso, precisamos nos indignar, mas precisamos sê-lo de forma concreta e real. Precisamos de ações verdadeiras. Chega de hipocrisia, chega de 15 minutos de revolta. Ao deixarmos de lutar, estamos sendo coniventes. Até quando jogamos um inocente papel de bala na rua estamos sendo comparsas. Depois não adianta esbravejar (pelo face, mais uma vez) contra os milhões desviados dos cofres públicos e usados, claro, para matar animais inocentes, matar crianças indefesas, esmagar dois terços da humanidade e explodir o planeta.

Movimento Super Salários Não!!!!!

domingo, 10 de julho de 2011

PELA APLICAÇÃO DA LEI DO PISO DO MAGISTÉRIO EM SARANDI

Prezados cidadãos e cidadãs da comunidade de Sarandi,
Nós, profissionais do Magistério e da Educação Sarandiense, vimos através desta carta pública alertar a Vossa Excelência Sr. Prefeito, a Senhora Secretária de Educação deste Município, ao nosso Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Sarandi – SISMUS e aos pais dos nossos alunos sobre nossas reivindicações referentes às condições de trabalho e valorização profissional – aplicação da lei do piso salarial nacional.
Vivemos um momento histórico de luta árdua e diária em que estamos resistindo a negação de direitos, especialmente os baixos salários que está levando a um número elevado de colegas pedindo “as contas” para trabalhar em municípios vizinhos que pagam mais e possuem um plano de carreira incomparavelmente melhor que o nosso, acarretando sobrecarga de trabalho aos que ficam.
A falta de professores, principalmente os especializados, ocorre a perda do direito da hora aula atividade que são momentos dedicados à preparação de aulas, correção de avaliações, atendimento aos pais, entre outros. A perda deste direito (hora aula atividade) tem como consequencia a perda de qualidade do ensino o que resulta perda da qualidade na educação do município.
As consequências de uma educação de má qualidade para o futuro de uma cidade são desastrosas em todos os sentidos. Diante da realidade que estamos enfrentando no nosso dia a dia nas escolas, necessitamos urgente de uma política de valorização dos trabalhadores municipais da Educação de Sarandi, por isso exigimos:
• Que se cumpra a Lei do Piso Nacional de acordo com as reivindicações da CNTE; (Confederação Nacional dos Trabalhadores em educação);
• Readequação do PCCRM (Plano de Cargos Carreira e Remuneração do Magistério);
• Divulgação das prestações de contas das verbas destinadas à Educação;
• Contratação de professores para suprir a falta destes profissionais e permitir que todos os professores usufruam de seus direitos como afastamento não remunerado (Principalmente para estudos) e licença prêmio;
• Elaboração de cronograma organizacional, no mínimo de dois anos, organizando e agendando a liberação para licenças prêmio com a finalidade de evitar atrasos absurdos em relação a licenças: sabemos que há professores na rede com até 3 licenças atrasadas (15 anos de trabalho sem usufruir desse direito );
• Remuneração, salário inicial de acordo com formação;
• Hora-aula atividade respeitada: que todos que tem esse direito possam usufruir de acordo com a Lei do Piso (1/3 hora aula atividade e 2/3 em sala);
• Reunião com o poder executivo abrindo o negociação com os profissionais da educação e a comunidade sarandiense para o atendimento das demandas para que nenhum estudante fique de fora do acesso à educação.
• Imediata aplicação pelo poder executivo da Lei do Piso Nacional Profissional do Magistério. Agora o piso é lei, nós exigimos sua implementação atraves de ampla discussao com a categoria!
A SITUAÇÃO É GRAVE! Precisamos nos unir e buscar um Plano de Carreira dos professores que contemple e respeite a Lei do Piso Nacional do Magistério articulando o atendimento das reivindicações dos professores e da comunidade sarandiense num Plano Municipal de Educação. Por isso convocamos a direção do nosso sindicato SISMUS a entrar nesta luta pela garantia de direitos, a melhoria dos salários a partir da aplicação da Lei do Piso e pela melhoria da qualidade da educação com mais investimentos.
Propomos convocar os companheiros da direção do SISMUS a ocupar seu lugar nesta luta e ajudar sua base nesta conquista tão importante para todos os profissionais do magistério de Sarandi.
Carta aprovada por aclamação em Audiência pública pela Educação realizada na câmara municipal de Sarandi, no dia 06/07/2011, que contou com a presença de mais de 50 profissionais da educação

sexta-feira, 24 de junho de 2011

E a Igreja se fez show...

Por Cesar Kuzma

Neste último domingo, dia 19 de junho, assisti a apresentação do Pe. Reginaldo Manzotti no “Domingão do Faustão”. Com certeza, o Pe. Manzotti alcançou a fama que procurava há muito tempo e hoje se tornou tão conhecido como o Marcelo Rossi (a quem imitou e seguiu) e outros "midiáticos" da Igreja Católica no Brasil e, também, do mundo da música e do entretenimento.


No entanto, tal apresentação me faz parar e refletir alguns pontos: 1) O que representa para a Igreja Católica atual uma personalidade assim? 2) O que ele traz de novo, ou se realmente ele traz algo novo? 3) Que imagem de Igreja estamos passando para a sociedade com uma pessoa assim e, obviamente, para a própria Igreja, hoje tão carente de formação? Cada um destes pontos merece uma análise profunda, que não faremos, a ideia é apenas uma breve reflexão sobre o assunto, crítica, mas respeitosa.


O Documento Lumen gentium do Concílio Vaticano II (1962-1965), que apresenta uma reflexão dogmática sobre a Igreja, destacando sua natureza e missão, começa assim: "Lumen gentium cum sit Christus", ou seja, a Igreja é luz para os povos assim como Cristo. Ser luz, no entanto, é transmitir a mensagem do Evangelho, na qual Cristo é a luz. A Igreja, que somos nós, não tem uma luz própria e não prega a si mesma e, consequentemente, não conduz as pessoas a si, pois ela não é o fim, o destino de todos. A Igreja é iluminada pela luz de Cristo, cujo Espírito a conduz.


A Igreja, como "luz do mundo" anuncia Cristo e o seu Reino e conduz as pessoas a este fim, a este éschaton (destino último); assim ela é sinal e sacramento. Este mesmo documento apresenta-nos o papel dos batizados, que compõem a Igreja de Cristo, discernindo a sua vocação e missão. Isso fica claro quando ela nos remete a questão do serviço, um serviço ao Reino, a exemplo de Jesus, que na sua humildade e pequenez conduziu as pessoas à esperança num reino de amor, justiça e paz; um Jesus que declarou bem-aventurados os pobres e, a partir deles, iniciou o seu testemunho, fazendo-se pobre para de tudo nos libertar, sendo ponto de justiça, caminho e verdade.


Preocupa-me saber o que representa o Pe. Manzotti para a Igreja e para a sociedade brasileira atual. Será que ele representa o seguimento de um Jesus pobre da Galiléia, tão profundamente descrito nos Evangelhos, ou será que ele representa a si mesmo, diante do orgulho e da vaidade, pecado tão sutil aos membros da mídia, ou daqueles que são feitos ou produzidos por ela? Quem fez o Pe. Manzotti e a sua fama e o que ele representa? Será que ele representa a Igreja Católica ou representa as gravadoras e emissoras de rádio e TV em que atua? O Pe. Manzotti anuncia a "boa nova" do Evangelho ou anuncia a "sua boa nova", tão frágil e carente de conteúdo. Com certeza, o Pe. Manzotti não representa a Igreja que eu sigo e acredito, pois sua pregação, atuação e postura estão muito longe (mas longe mesmo!) do que entendo como proposta de seguimento, discipulado e missionariedade. Não falo apenas das letras de suas músicas (muitas delas, por sinal, com graves erros teológicos que educam o povo erroneamente); não falo das suas fotos sensuais nos álbuns dos CDs; não falo dessas situações, pois é pequeno demais e nem vale a pena; mas falo da postura, atuação e pregação que deve ter um cristão, quer ele seja um leigo, um religioso ou um padre, mas uma atuação de seguimento e de exemplo... Lumen gentium! É uma pena, pois um projeto de inculturação da fé deveria ser um serviço de integração com a sociedade e não uma maneira de ser refém desta, juntando seu capital, glamour e aparência. Uma Igreja que propõe discipulado e missionariedade com o Documento de Aparecida (2007) fica a mercê diante desta forma de "evangelizar". O que representa o Pe. Manzotti? Bem, certamente, representa a si mesmo e a sua imagem...


É evidente que sua pregação não traz nada de novo, pois dentro de músicas modernas se esconde uma postura de Igreja fechada e clerical, que coloca o padre (o sacerdote, maneira como ele sempre se apresenta) em destaque diante dos fiéis. Antes tínhamos o padre que apenas rezava a sua missa, deixando o povo na expectativa, como alguém que sempre recebe. Agora temos o mesmo padre com suas vestes carregadas e pomposas (como de antigamente) tornando-se um cantor e animador de auditório em programas de televisão e em praças públicas pelo Brasil. Não negamos que a Igreja deva adotar uma nova postura diante da sociedade moderna e pós-moderna, de maneira a integrar mais as pessoas e seus novos problemas e questionamentos, acontece que posturas assim envolvem o povo em luzes e sons, transformando o altar num palco e a Eucaristia num show, totalmente oposto aos ensinamentos da Igreja e totalmente contraditório com a proposta de Jesus, que se tornou igual e semelhante ao seu povo e só assim pôde conduzi-los no caminho do Reino (Fl 2,6-9). O Pe. diz que não faz show, fico em dúvida, então, para saber o que ele faz... Um dos seus programas de televisão chama-se "evangeliza show", algo próximo ao "show da fé" de R. R. Soares. Há que se entender que Igreja não é show business. Quando a Igreja passa a ser show ela deixa de ser comunidade, ela deixa de ser o local onde as pessoas se reúnem para partilhar do mesmo pão, ao redor de uma mesma mesa, tornando-se um só, em Cristo. Quando a Igreja se torna show ela deixa de ter eclesialidade, pois tira dos seus membros a participação ativa diante de sua missão, pois ninguém se conhece, todos são "turistas religiosos" atrás de um cantor, que neste caso, também é padre. Quando a Igreja se torna show ela se distancia drasticamente da proposta do Evangelho de Jesus, que nasceu pobre numa estrebaria, que viveu pobre na Galiléia e que morreu pobre e sozinho numa cruz em Jerusalém.


Mas alguém poderá dizer: mas ela fala tão bem, ele atrai tanta gente... Não nego que tenha méritos, e deve haver, mas questiono a forma e o modelo com que faz tais coisas. Até que ponto as pessoas seguem a Cristo e não o Padre? Até que ponto as pessoas vão à missa pelo Padre e não pela comunidade? Até que ponto as pessoas estão usando isso para um alimento pastoral e engajamento, e sim, para um aumento do individualismo e do culto ao "Eu-com-Deus", distanciando-se de uma proposta de Igreja de comunhão? Até que ponto a mensagem do Evangelho é atrair mais pessoas para a Igreja Católica (ou para outra Igreja)? Esta nunca foi a proposta de Jesus Cristo.


Quando questionado pelo rico faturamento que seu projeto traz, ele rapidamente diz que o dinheiro é para o projeto "Evangelizar é preciso" e não para ele. Mas o que é este projeto, que não fazer a divulgação dos trabalhos, CDs, livros, shows e produtos do padre? Evangelizar é preciso, é claro, mas o que é mesmo evangelizar? Se evangelizar for montar um projeto milionário, se for ser amigo do governador do Estado, aliado de pessoas da elite social e fazer shows, gravar CDs e ter programas de televisão e rádio, acho que não sei mesmo o que é evangelizar. Se fosse assim, Jesus deveria ter começado a sua missão no palácio de Herodes, na casa de Caifás e Anás e ter um grande acordo com Pôncio Pilatos, ao invés de começar em uma aldeia de pescadores da Galiléia. Acho que tudo isso é importante e deve e pode ser feito, desde que o horizonte último seja Cristo e o seu Reino, desde que isso possa ser multiplicado nas pequenas coisas e exemplos do cotidiano. Num momento em que Igreja reflete a sua eclesiologia (sobre a Igreja) em tentativa de resgate a pequenas comunidades, menores e mais
concentradas, mas com mais vigor e postura evangélica, tal postura do Pe. Manzotti vai contra este pleito.


Preocupa-me saber que imagem nós estamos passando de Igreja, preocupa-me saber que Igreja nós estamos formando para nossos filhos e membros e que mensagem de Reino nós estamos passando à sociedade. Foi-se o tempo em que cantávamos na missa ou nos grupos sem nos preocupar de quem era a música ou o CD (disco ou cassete na época), foi-se o tempo de que as músicas religiosas tinham mais teor evangélico e mais coerências sociais (ainda encontramos isso no Pe. Zezinho e Zé Vicente e em alguns outros), foi-se o tempo em que pertencer a determinada comunidade trouxesse ao cristão uma identidade viva e coerente, capaz de ligar a comunidade a sua vida, e assim por diante. Há um crescimento do turismo religioso motivado por fenômenos como o Manzotti, mas um declínio de conteúdo e discernimento da fé. Parece que damos razão a nossos interlocutores críticos da religião como Marx que disse: "A religião é o ópio do povo". Quando a Igreja se faz show, vemos que Marx tinha razão, pois ao invés de libertar ela aliena, pois o aprisionamento religioso faz parte de sua postura ideológica. Lamentável!


É lamentável entender que a Igreja Católica no Brasil hoje passa a ser representada por padres midiáticos como este, onde sua proposta de missão obedece mais aos interesses das gravadoras como "Som Livre" e outras do que a proposta do Evangelho. Esta representação deixa um Jesus de Nazaré pequeno, quase esquecido, diante das luzes que compõem o grande espetáculo. É triste entender e lembrar que no passado estávamos representados (e muito bem!) por pessoas como Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Ivo e Aluisio Lorscheider, Dom Pedro Casaldáliga e tantos outros que deram a sua vida de fé em favor da paz, do amor e da justiça, testemunhas autênticas do Evangelho, e hoje, quem diria, somos representados por pessoas assim... É uma pena que pessoas tão importantes e atuantes pelas causas da Igreja só sejam reconhecidas depois de mortas em martírio, como Irmã Doroty e tantos outros, esquecidos por nós (Igreja) e pela sociedade. É uma pena imensa que pessoas atuantes em pastorais sociais e em diversos movimentos sejam muitas vezes esquecidos pela Igreja ou punidos por ela (TdL) por defenderem a causa da justiça contra os ricos e poderosos; ricos e poderosos que sustentam esta estrutura piramidal e patrocinam "novas lideranças" como o Pe. Manzotti, que pela postura, servem a seus interesses.


É triste dizer que a Igreja se fez show...
Cesar Kuzma
Teólogo leigo, católico, professor de Teologia da PUCPR. Assessor em grupos e movimentos eclesiais.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A EXCEÇÃO E A REGRA

Por Bertold Brecht – Adaptado por Eduardo Fernando Montagnari.

Primeiro, ache estranho o que não é estranho
Segundo, ache difícil de explicar o que parece banal
E por último, ache difícil de entender o que se apresenta como a regra
Desconfie de tudo
Diante da banalidade, aja sempre com cautela
E numa, mas nunca mesmo, deixe de fazer perguntas
Case seja necessário comece pelo que é mais comum
Caso seja necessário comece pelo que é comum
E procure saber se está correto
O senhor Brecht solicita expressamente
Nunca ache natural o que acontece e torna acontecer
Num tempo de confusão e violência
De desordem ordenada
Num tempo de arbitrariedade proposital
De impunidade descarada
Num tempo sombrio e triste
De humanidade desumanizada
Para que nada seja considerado imutável
Nada, absolutamente nada
Nunca diga: Isso é natural.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Sociologia no Ensino Médio: ainda em busca de legitimidade

A presença da Sociologia no Ensino Médio nunca foi algo pacífico ou consensual. Em sua trajetória a Sociologia foi inserida ou excluída dos currículos deste nível educacional em diversos momentos, ao sabor do governante da época. Com a abertura política pós-ditadura militar e a conseqüente redemocratização, os sociólogos passaram a lutar para que a Sociologia fosse aceita definitivamente na grade curricular do Ensino Médio.

Fruto de lutas, avanços e retrocessos, e muita mobilização, finalmente em 2008 a obrigatoriedade desta disciplina nas três séries do Ensino Médio foi estabelecida através da alteração do art. 36 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996. O novo texto determina não mais que estudante apresente conhecimentos de Sociologia ao término do Ensino Médio, mas que esta disciplina seja lecionada em todos os anos de tal curso.

No entanto, a prescrição legal não foi suficiente para que a Sociologia fosse respeitada por todos como uma disciplina fundamental para a formação das novas gerações. No Estado do Paraná, desde que voltou a ser ensinada, a cada ano, os licenciados em Sociologia enfrentam árduas batalhas para assumirem estas aulas. Impera nos setores administrativos e nas escolas paranaenses a crença de que qualquer graduado, de qualquer área, pode lecionar Sociologia, assim como a sua irmã mais velha, a Filosofia.

Desde a publicação da LDB de 1996 sabe-se que o estudante do Ensino Médio, ao concluir este curso, deve apresentar domínio de conhecimentos filosóficos e sociológicos. Contudo, o texto da lei não especifica como este conhecimento deve ser ensinado. Deste modo, num primeiro momento estes saberes foram incorporados em outras disciplinas ou tratados como conteúdos transversais e depois passaram a ser ensinados em disciplinas específicas, mas em apenas uma série do Ensino Médio. Somente a partir deste ano, 2011, por determinação legal, a Sociologia – assim como a Filosofia – passou a ser ensinada nas três séries do Ensino Médio no Estado do Paraná, cumprindo o decreto presidencial supracitado.

Contudo, o Estado parece ter pouca clareza sobre quem é capacitado a ensinar Sociologia. Nos primeiros anos em que essa foi ensinada no Paraná, foi comum professores de qualquer área lecionando-a. Em muitos casos, graduandos em Ciências sociais iam para as escolas fazer o estágio supervisionado, mas chegando às salas de aula assustavam-se ao saber que o professor que ia orientá-los no estágio era formado em matemática, química ou letras. Não raro estes professores se recusaram a receber o estágio em suas salas de aula. Para evitar deslocamento para outras escolas estes professores assumiam as aulas de Sociologia e passavam a (não?) ensiná-las aos estudantes dessas escolas.

Indignados com esta situação, profissionais licenciados em Sociologia passaram a reivindicar o direito de assumir essas aulas. Depois de muitas lutas, estes professores foram, progressivamente, ocupando seu lugar nas escolas. No entanto, esta prática privatista de repassar as aulas de Sociologia para professores amigos ainda é comum em muitas escolas. De tempos em tempos surgem casos em que o professor não é formado na ciência específica. E o que mais nos assusta é que há um exército de sociólogos nas listas de espera para assumir a função que lhe compete no Ensino Médio.

Parece que a lógica que orienta a política para a educação é a do menor custo e não a da qualidade da educação e da melhor assistência aos alunos. Para que um professor concursado possa completar o seu padrão com aulas de sociologia basta que tenha em seu histórico escolar 120 horas dessa disciplina, não importando que ele seja formado em história ou engenharia mecânica. Como a Sociologia é ensinada na maioria dos cursos, pasmem, quase todos os graduados são considerados, pelo Estado, habilitados a ensiná-la e possuem precedência aos licenciados em Sociologia no caso de inexistência de aulas em sua disciplina.

O que gera este problema é que praticamente inexistem professores de Sociologia concursados. O último e único concurso para contratação de professores desta disciplina foi realizado em 2004. Assim, a defasagem de professores do Quadro Próprio do Magistério (QPM) em Sociologia é de mais de 90%. Para suprir esta demanda ano a ano o governo contrata professores em regime de urgência, através do Processo Seletivo Simplificado (PSS). No entanto, os professores já concursados em outras disciplinas, sem aulas no seu padrão, possuem prioridade para assumir as aulas de Sociologia, desde que possuam a carga horária mínima de 120 horas cursadas em seus currículos da disciplina a ser lecionada.

No ano de 2011, a luta dos professores de Sociologia intensificou-se. As principais bandeiras levantadas foram a defesa de uma educação pública de qualidade e pelo direito dos alunos aprenderem Sociologia com sociólogos. O processo de contratação de professores temporários, o chamado PSS, deste ano caracteriza-se por confusão, processos na justiça, protestos e a desclassificação de professores formados em várias disciplinas, incluindo Ciências Sociais, com especialização e experiência de trabalho no Estado do Paraná. Neste ano ocorreu ainda mais um agravante: a distribuição de aulas de Sociologia para completar padrão de professores de outras áreas já é algo comum e previsto na legislação estadual. Contudo, além da distribuição das aulas para completar padrão, o Núcleo Regional de Educação entregou as aulas de Sociologia para professores de outras áreas como aulas extras[1].

Preocupados em ficar sem aulas e insatisfeitos com esta situação, nós, graduados e professores de Sociologia, decidimos nos mobilizar e protestar contra o descaso com a educação pública paranaense. Começamos através de troca de e-mails e em seguida passamos a nos reunir. Já na primeira reunião decidimos que tínhamos que trazer a público a situação que se encontra a educação estadual. Nossa avaliação foi a de que o cidadão paranaense tem o direito de saber o que ocorre dentro dos muros das escolas.

Nossa primeira manifestação foi realizada com diplomas de Cientistas Sociais nas mãos, nariz de palhaço e apitos na boca. Queríamos denunciar a desclassificação injusta de colegas e a distribuição de aulas de Sociologia para outros profissionais. Com apoio da APP Sindicato saímos em caminhada de frente a sua sede em direção ao Núcleo Regional de Educação (NRE), onde a imprensa já nos esperava. Depois de algum tempo de protesto, a chefe do NRE de Maringá admitiu o equívoco e revogou a distribuição de aulas feita a outros educadores. Tínhamos vencido uma batalha.

Na semana seguinte, ao saber que o vice-governador e secretário da educação, Flávio Arns, viria a Maringá, decidimos fazer nova manifestação e entregar uma carta relatando a situação ao secretário. Nossas reivindicações foram por educação pública de qualidade, através da reorganização do PSS 2011 e da realização de concurso público para contratar professores de Sociologia. Informamos ao secretário que pelo menos 90% desses trabalham de forma precária, através do PSS, ou através das complementações de padrão de outras disciplinas. Atencioso, o vice-governador disse concordar com nossas reivindicações e admitiu que solução definitiva é a realização de concurso público para a disciplina específica.

Entendemos que demos um passo a mais no sentido da legitimidade e da consolidação da Sociologia no Ensino Médio. No entanto, a luz no fim do túnel ainda é tênue. Subsiste ainda forte resistência ao ensino de Sociologia por alguns setores da educação pública. Nós, Cientistas Sociais, precisamos matar um leão por dia para garantir que nossa ciência continue a ser ensinada em nível médio. Diante das perspectivas incertas precisamos manter a mobilização e luta para que a Sociologia esteja presente em todos os anos do Ensino Médio e que seja ensinada por sociólogos ou Cientistas Sociais. Neste cenário tenebroso visualizamos apenas salários atrasados, poucas perspectivas de realização de concurso e descaso para com nossos alunos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

CARTA AO EXMO. SECRETÁRIO DA SR. EDUCAÇÃO FLÁVIO ARNS

PELO DIREITO DE SE ENSINAR E APRENDER SOCIOLOGIA NO ENSINO MÉDIO
A história do ensino de sociologia no Brasil caracteriza-se por mais de 100 anos de idas e vindas. Durante esta trajetória já secular a presença da sociologia no ensino médio permaneceu intermitente, ou seja, ao longo deste período a disciplina foi incluída e excluída dos currículos da Educação Básica por diversas vezes.
O processo de redemocratização suscitou o retorno gradativo da sociologia ao Ensino Médio, culminando com a sanção do decreto de Lei 11.684/08 assinado pelo Presidente em exercício José Alencar. Tal decreto alterou o texto da Lei de Diretrizes e Bases da educação nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, estabelecendo o ensino de sociologia em todas as séries do ensino médio. Com base neste decreto o governo do Estado do Paraná através da Deliberação N.º 03/08 determinou como a sociologia deveria ser implantada no Estado do Paraná.
Atualmente, para suprir a necessidade de professores da Rede Estadual de Ensino, para além dos concursos específicos, a Secretária de Estado da Educação (SEED) promove o Processo Seletivo Simplificado (PSS). Como o último concurso público para o provimento de vagas em sociologia ocorreu no ano de 2004, três anos antes do último grande concurso público promovido pelo Estado em 2007, já faz mais de seis anos que a disciplina de sociologia é suprida, em sua grande maioria, apenas por professores em regime de trabalho temporário, o que limita pedagogicamente os trabalhos dos professores e os impede de fazer planejamentos a médio e longo prazo. Tais condições geram instabilidade e insegurança quanto à expectativa de permanência no trabalho por parte do docente.
No entanto, os problemas não se resumem a isso. Os sociólogos que se classificam através do PSS encontram dificuldades em estabelecer contrato de trabalho devido a uma série de fatores. Destacamos a não apresentação das aulas de sociologia nas sessões públicas de distribuição de aulas, realizadas periodicamente pelo Núcleo Regional de educação. Em outros casos as aulas de sociologia são distribuídas ilegalmente para professores de outras disciplinas.
Entendemos que as aulas atribuídas indevidamente àqueles que não se enquadram na legislação devem ser canceladas, sendo atribuídas àqueles de direito. O direito administrativo prevê que o ato jurídico ilegal deve ser anulado e gerar seus efeitos de imediato. O ato jurídico de atribuição de aula a quem não é habilitado conforme Lei 11.6048/08 é ilegal e não pode gerar efeito de direito.
Os professores inscritos e classificados nesse Processo de Seleção esperam, no mínimo, que as aulas estejam expostas nas devidas sessões públicas. Entretanto, o que vem ocorrendo há muito tempo, e que se repetiu no ano de 2011, é o inverso: os próprios classificados é que fazem um trabalho de investigação para descobrir quantas aulas existem em cada Colégio e se estas estão sendo ministradas por profissionais habilitados de acordo com a legislação vigente quando, na verdade, o Estado deveria garantir a lisura e a clareza do processo de contração de professores. Este ano tivemos o agravante de professores absolutamente qualificados, especialistas e prestadores de serviço ao Estado por vários anos serem eliminados do processo. Entendemos que esta situação prejudica a qualidade da educação pública, já que este docente será substituído por outro menos graduado.
O desgaste moral e físico pelo qual passamos por conta dessa labuta investigativa é incomensurável. Por isso faz-se saber que repudiamos o destrato e a maneira como foi conduzida o PSS do ano corrente, onde por muitas vezes prevaleceram o desrespeito no trato para com os professores. Igualmente repudiamos a insuficiência de professores concursados para lecionar a disciplina de sociologia, fato que impede que o docente realize um trabalho continuado em uma escola.
Desse modo, solicitamos a Vossa Excelência, Secretário de Estado de Educação do Paraná, providências urgentes a respeito da forma como o PSS 2011 tem sido administrado. Em nossa região a maioria das escolas não está oferecendo aulas de sociologia por conta dos problemas do processo de distribuição de aulas. Enfatizamos que estas aulas devem ser supridas por profissionais habilitados para a transmissão de conteúdos próprios da disciplina de sociologia, algo imprescindível para um ensino de qualidade. O argumento de que não há profissionais habilitados na disciplina já não é mais aceitável, considerando que os cursos de ciências sociais encontram-se em franca expansão em todo o Paraná.
Dirigimo-nos à vossa excelência ainda para Solicitar o cumprimento da Deliberação N.º 03/08 emitida pelo Conselho Estadual de educação do Estado do Paraná que determina, no artigo 6°, que até o ano de 2012 todos os professores de sociologia neste Estado sejam licenciados em Ciências sociais e/ou Sociologia.
Por fim, entendemos que a realização de concurso público para a contratação de professores de sociologia é uma condição necessária e urgente para a continuidade do processo de construção de uma educação pública, gratuita e de qualidade e para oferecer dignidade aos profissionais das Ciências Sociais que já há vários anos Servem ao Estado do Paraná através do regime de contratação PSS.

ATENCIOSAMENTE
PROFESSORES DE SOCIOLOGIA DA REGIÃO DE MARINGÁ

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

CARTA ABERTA AOS CIENTISTAS SOCIAIS

Toledo, 5 de fevereiro de 2011


“A injustiça contra um é uma ameaça para todos.”
Barão de Montesquieu



O QUE OCORREU EM BELTRÃO

Ontem (04-02-11) durante a distribuição de aulas em Realeza, nós, professores graduados em Ciências Sociais na UNIOESTE, fomos desclassificados, pois no julgamento dos funcionários do Núcleo de Educação de Francisco Beltrão, a nossa formação não é específica para lecionar a disciplina de Sociologia.

Éramos apenas três graduados em Ciências Sociais. Todos nós tivemos as inscrições INDEFERIDAS, e fomos eliminados.

Entre inúmeros outros problemas. Vimos o atraso de cerca de seis horas na distribuição, falta de transparência no processo, que distribuía as aulas a portas fechadas, com um candidato por vez, sem nos dar informações prévias sobre ordem classificatória, indeferimento ou número de aulas vagas, o que fere o princípio de publicidade em qualquer sessão pública.

Uma acadêmica do 2º ano do curso de Licenciatura em Sociologia ofertado pela UNIJUI na modalidade a Distancia – EAD foi considerada, no julgamento do órgão responsável do Estado, “merecedora das tais aulas.


QUESTÕES

Então, tomados de revolta e indignação, gostaríamos de questionar aos nossos colegas, graduandos, graduados, mestres e doutores em Ciências Sociais o que acontece com a nossa graduação presencial com intensa publicação bibliográfica?

Concorreremos às aulas de Sociologia em igualdade de condições com Advogados, Pedagogos, Historiadores, Geógrafos, Assistentes Sociais, Filósofos, e outros?

Estamos, assim, um passo atrás dos formados e acadêmicos de EAD em Sociologia – Licenciatura?

O investimento público em Cursos de Ciências Sociais, nas Universidades Estaduais. Para que serve? Qual a utilidade pública de um Cientista Social?

O CASO DE MARINGÁ

Muitos professores de outras áreas completaram suas horas de trabalho exercendo a função de professor de sociologia. Apesar de alguns casos que podem abrir precedentes, como o de Maringá:

“Professores fazem manifestação em frente ao Núcleo de Educação de Maringá”
http://maringa.odiario.com/maringa/noticia/388678/professores-fazem-manifestacao-em-frente-ao-nre/

em outros Núcleos não se obteve êxito nesse pleito.

MOBILIZAR É IMPORTANTE

“APP faz mobilização e se reúne com Seed para rever PSS”
http://www.appsindicato.org.br/Include/Paginas/noticia.aspx?id=5212

“Secretaria de Educação suspende PSS”
http://www.appsindicato.org.br/Include/Paginas/noticia.aspx?id=5237


O QUE VEM POR AÍ

Caros colegas, acreditamos que o pior ainda está por vir.

O governo anunciou contratação do concurso 2007, no qual não existiu nenhuma vaga para sociologia.

Acontece que, uma vez contratado como efetivo, é direito do professor conseguir aulas na escola em que está lotado. Desta forma, o Estado encherá seus quadros de historiadores, geógrafos, pedagogos, etc.

Faltando aulas para suas funções especificas, estes irão para sala de aula e lecionarão Sociologia e Filosofia.

Não é apenas uma questão de debate, é hora de agir!
Estamos convocando todos para a LUTA. É imediato, é para agora!

Cláudia Regina Mallmann
Licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná

Luiz Alberto Cavalli
Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná

sábado, 29 de janeiro de 2011

CIENTISTA SOCIAL? FINALMENTE?

No dia 27 de janeiro de 2011 tive a alegria de participar da cerimônia de colação de grau geral da universidade estadual de Maringá, na qual recebi o grau de graduado em ciências sociais, juntamente com 37 colegas de minha turma. Somos 38 novos cientistas sociais. Será? Pelos menos do meu ponto de vista, continuamos estudantes em formação, de modo que vejo um longo caminho até que, de fato, possa me reconhecer como tal. Mas talvez o objetivo de um curso de graduação seja exatamente este. Oferecer ao estudante o alfabeto científico para que, ao término do curso, o então graduado esteja em condições de iniciar seus estudos em sua área.
Deste modo, durante estes quatro anos, aprendi o BEABA das ciências sociais. Agora estou alfabetizado e posso começar a ler. No entanto, até adquirir prática nesta ação devo passar por um longo caminho que inclui mestrado, doutorado e muita prática de pesquisa. Quem sabe, após esta longa jornada, poderei finalmente me reconhecer como cientista social. Por enquanto, mesmo como graduado, só posso afirmar que sou alguém em busca de conhecimento, um jovem em continua formação e em busca de sabedoria.
Durante estes quatros anos de formação muitas pessoas passaram pela minha vida e contribuíram com minha formação: familiares, namorada, amigos, pessoas desconhecidas, colegas de turma, de outros anos e cursos, funcionários da universidade etc. Mas algumas pessoas se destacam, de modo que posso afirmar que meus parcos conhecimentos sociológicos são uma síntese do que aprendi com estas pessoas. Estes são meus professores, a quem sou muito grato por tudo que me ensinaram. Agradeço pelas horas gastas no preparo de aulas, de correção de trabalhos e provas. Mas agradeço, sobretudo, pela amizade com que me receberam e pelo amor que sempre cultivaram para com o conhecimento e pelas ciências sociais. Agradeço a todos, desde a professora que me alfabetizou, quando no primário, até aos pós-doutores deste curso que acabo de concluir.
As palavras que tenho são insuficientes para registrar minha gratidão pelos 26 professores que lecionaram as 37 disciplinas que cursei nestes quatros anos. Portanto, gostaria apenas de registrar aqui o nome e a disciplina que cada professor lecionou no meu curso. Espero, desta forma, poder homenagear cada um dos meus queridos professores, amigos e companheiros nesta jornada que está apenas começando.

1° ANO - 1° SEMESTRE
Teoria de ciências humanas – Prof. Paulo Ricardo Martines
Historia geral – Prof. Sidney Munhoz
Antropologia 1 – Profª. Simone Pereira da Costa dourado
Sociologia 1 – Prof. Eduardo Fernando Montagnari
Ciência Política 1 – Prof. Sergio Candido de melo
1° ANO – 2° SEMESTRE
Antropologia 2 – Profª. Marivania Conceição de Araujo
Sociologia 2 – Prof. Pedro Jorge de Freitas
Metodologia e técnicas de pesquisa em ciências sociais – Profª. Eide Sandra Azevêdo Abrêu
Geografia Humana – Profª. Yolanda aoki
Ciência política 2 – Prof. Sergio Candido de melo

2° ANO – 1° SEMESTRE
Antropologia 3 – Profª. Zuleika de Paula Bueno
Sociologia 3 – Prof. Eduardo Fernando Montagnari
Pensamento Social Brasileiro – Profª. Carla Cecília Rodrigues Almeida
Ciência política 3 – Profª. Eide Sandra Azevêdo Abrêu
Economia - Prof. Virgílio de Almeida
2° ANO – 2° SEMESTRE
Antropologia 4 – Profª. Cleyde Rodrigues Amorim
Sociologia 4 - Prof. Fábio Viana Ribeiro
Historia do Brasil – Prof. Rivail Rolim
Ciência política 4 – Prof. Antonio Ozai da Silva
Estatística – Profª. Simone Miloca

3° ANO – 1° SEMESTRE
Sociologia 5 – Prof. Edinaldo aparecido Ribeiro
Etnografia e etnologia – Profª. Wania Rezende da silva
Estágio Supervisionado 1 – Profª. Zuleika de Paula Bueno
Ciência Política 5 – Prof. Edinaldo aparecido ribeiro
Estado e mercado no capitalismo contemporâneo – Sergio Gini
3° ANO – 2° SEMESTRE
Didática – Profª. Vanessa Campos Mariano Ruckstadter
Psicologia da educação – Profª. Maria de Lourdes Perioto Guhur (Vera)
Teoria Política Contemporânea - Profª. Carla Cecília Rodrigues Almeida
Ciência Política 6 – Profª. Celene Tonella

4° ANO – 1° SEMESTRE
Sociologia 6 – WALTER LÚCIO DE ALENCAR PRAXEDES
Estagio supervisionado 2 – Prof. Zuleika de Paula Bueno
Sociologia do Pierre Bourdieu - Prof. WALTER LÚCIO DE ALENCAR PRAXEDES
Políticas públicas e gestão educacional – Profª. Elma Júlia Gonçalves de Carvalho
Metodologia e técnicas de pesquisa em ciências sociais – Profª. Eliane Sebeika Rapchan
4° ANO – 2° SEMESTRE
Antropologia contemporânea - Profª. Simone Pereira da Costa dourado
Movimentos sociais, política e cultura no Brasil contemporâneo - Profª. Carla Cecília Rodrigues Almeida
Participação e gestão em políticas públicas – Profª. Celene Tonella


Foram 37 disciplinas, lecionadas por 26 professores, sendo 22 professores doutores e 2 em fase de doutoramento e 2 mestres.
Ao mestre, muito obrigado.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O que Rousseau diria de nossa sociedade e do nosso sistema político?

"Num Estado verdadeiramente livre, os cidadãos fazem tudo com seus braços e nada com o dinheiro; longe de pagar para se isentarem de seus deveres, pagarão para cumpri-los por si mesmos" (Rousseau - O Contrato Social).





Quando os cidadãos deixam de realizar atividades públicas e passam a pagá-las, o Estado estaria próxima da ruína, segundo o pensador genebrino.





O que Rousseau diria de nossa sociedade e do nosso sistema político?

sábado, 13 de novembro de 2010

Por que a oposição às cotas raciais nas universidades?

Por Antônio Ozaí da Silva

Assisti ao documentário Raça Humana, da TV Câmara.*Revela os bastidores da discussão sobre as cotas raciais na Universidade de Brasília e apresenta os argumentos a favor e contrários.

A rejeição das cotas raciais faz parte da democracia. Não obstante, o discurso dos discentes e docentes faz pensar: por que tamanha oposição e agressividade? Será possível compreender esta postura apenas pelos argumentos ou é inerente à natureza da universidade? A minha hipótese é que a contenda sobre as cotas expressa algo mais profundo do que ser contra ou a favor. É o próprio caráter da universidade e do seu papel na sociedade que se encontra sob questionamento.

A universidade é, por excelência, o espaço das elites, expressão da influência desta no âmbito da sociedade – e isso é particularmente visível nos cursos de elite, os mais concorridos. A universidade é pública. Porém, da mesma forma que o Estado universaliza a cidadania através do reconhecimento dos direitos políticos, igualiza a todos na universalidade da lei e na categoria cidadão/cidadã e, assim, coloca um véu sobre a realidade social desigual, a universidade pública escamoteia as desigualdades de oportunidades fundadas em diferenças raciais, sociais e culturais. Se a universidade é para todos e, em tese, qualquer indivíduo, desde que se esforce, pode ingressar nela, ela o é no discurso, na letra da lei, no mito de que o vestibular é um critério justo para definir quem entra. A universidade é, por sua natureza social, excludente. As exceções dos menos favorecidos social e economicamente que conquistam o direito de freqüentá-la, e até de seguir carreira e se tornarem professores universitários e doutores, apenas confirmam a regra.

A universidade é intrinsecamente elitista. Não é por acaso que a resistência às cotas raciais aumenta na medida em que a escolaridade e o nível de renda são maiores. Isto tem uma relação direta com a oposição tenaz em cursos cujo perfil discente demonstra nível de renda maior (como no Direito).

Escolaridade e nível de renda caminham juntos. A classe média e os que se encontram acima, os mais aquinhoados financeiramente, são os que ocupam em sua maioria as vagas na universidade. No fundo, até mesmo pelo investimento que fazem na preparação dos seus filhos, vêem a universidade como sua. As cotas lhes parecem um perigoso artifício para tirar um direito adquirido pela posição que ocupam na sociedade. Até admitem que os pobres concorram, mas não reconhecem que o ponto de partida destes é inferior. No limite, acabam culpando o pobre pela situação em que se encontra.

Na universidade prevalece um tipo de saber pretensamente científico e racional, branco, eurocêntrico e excludente da cultura e saber populares. Eis os alicerces da nossa universidade, os quais foram sedimentados pela colonização que, seguindo a modernidade ocidental, impôs um padrão dominante erigido como novo dogma substituto à teologia. Em outras palavras, na universidade assimilamos acriticamente o modelo racional científico de saber, oficial e pretensamente neutro, legitimado em si mesmo. São os fundamentos elitistas desse saber e cultura oficiais, reservados aos que, desde a infância, trilham os caminhos e são preparados para incorporá-las: pois, suas famílias têm condições econômicas e culturais para tanto, isto é, são depositários do “capital social” e “capital cultural”. O vestibular, portanto, termina por escolher os escolhidos social e economicamente, isto é, os mais preparados pelas próprias condições de vida para passar pelo funil.

Raça Humana é um documentário que contribui para esta reflexão. Vale a pena assistir!


* Com direção e roteiro de Dulce Queiroz e duração de 42 minutos, Raça Humana foi vencedor da categoria Documentário, na 32ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anisitia e Direitos Humanos, em 2010. Para mais informações e download do vídeo em alta resolução, acesse: http://www.camara.gov.br/internet/tvcamara/?lnk=RACA-HUMANA&selecao=MAT&materia=100406&programa=138&velocidade=100K



Confira outros artigos do autor em: http://antoniozai.wordpress.com/

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Para quem vou votar nestas eleições.

que bom poder discutir no nível da política. Isso do meu ponto de vista é fundamental para a construção de um mundo público, comum.

A política opera com outra lógica, diferente da nossa moral. Meu posicionamento é sobretudo contra José Serra, não só porque ao lado dele esta vários políticos corruptos, como o próprio Severino Cavalcante. O pior que isso é que Serra é apoiado pelo DEMOCRATAS. Este partido é o antigo ARENA, o partido dos militares que deram o golpe militar e perseguiram, torturam, exilaram e mataram milhares de brasileiros. Neste contexto o Serra se exilou, foi para o Chile onde se casou e sua mulher inclusive cometeu um aborto enquanto Dilma ficou aqui lutando pela democracia. Mas respeito as duas posições, pois ambos estavam contra a bárbarie da ditadura.

O José Serra além do apoio desta direita golpista, conta com o apoio do grande latifúndio e do grande empresariado, responsáveis pela concentração de renda nas mãos de uma elite dominante. Além de políticos corruptos, o programa de governo de José Serra e do PSDB é alinhado as estruturas corruptas da sociedade, que dominam, exploram e oprimem o pova brasileiro já por 500 anos.

Não se trata, contudo de defender a corrupção dentro do governo. Pelo contrário, é e deve ser combatida veementemente. Dirceu foi julgado e condenado pelos crimes que cometeu. Todas as denúncias de corrupção foram apuradas pelo governo do PT, enquanto, por sua vez, os governos do PSDB reprimeram e esconderam os crimes de seus governos, como foi o caso das licitações da secretaria da educação de SP aprovadas para o grupo abril. No governo FHC a lei de reeleição foi aprovada através da compra de votos, Isso nunca foi apurado.O mensalão não começou no governo Lula, esperamos que tenha terminando nele.
Contudo, não sou um apaixonado cego pelo PT e/ou Lula. Fui em todo este período de governo um crítico de muitas políticas realizadas pelo governo, que não são capazes de resolver o problema do país, apenas tapar buracos. Entretanto, seria muito equivocado deixar de reconhecer os profundos avanços do governo Lula. Nós não percebemos isso porque não fazemos parte da população mais pobre do país. Não é a toa que a maioria absoluta dos nordestinos votam em Dilma. Em outros países, a começar pelo EUA, o Brasil esta muito prestigiado pela sua capacidade de retirar tanta gente da miséria e ainda realizar uma política internacional muito positiva.
Neste atual contexto, só compessa tirar o PT do governo se for pra por alguém pra aprofundar ainda mais a distribuição de renda e a iguadade social. Este projeto certamente não será continuado pelo PSDB. Historicamente os governos deles tem acentuado significativamente a concentração de renda na mão da elite dominante. O período em que a desigualdade social mais acentuou-se foi no governo de FHC.

Por todos estes motivos, considero a eleição de Serra um profundo retrocesso para a democracia do Brasil. Na minha opinião se a Dilma não é a candidata de nossos sonhos (apesar de eu considerá-la extremamente competente), o Serra é o pior dos pesadê-los para as pessoas pobres, para os trabalhadores, para os professores básicos e universitários, para os movimentos sociais, enfim, para todos que lutam por uma sociedade mais justa, igual e democrática. Ao contrário do que se apregoa, a ameaça a democracia não é o PT e sim Serra. Basta ver a campanha golpista dele apelando para os sentimentos da população em relação ao aborto e outras questões religiosas. Todos já sabemos que aléem de ter sido ele o grande patrocinador das privatizações, assinou a lei de aborto em caso de estupro e risco para mãe, e o mais grave, alunas de sua mulher relataram que ela cometeu um aborto, quando moravam no Chile.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Tiririca sabe ler?


Não se trata de discriminar o analfabeto, mas de avaliar as reais capacidades intelectuais de gestão de um cargo público tão exigente quanto ao que o palhaço se candidata. Caso ele não saiba ler, que antes o aprenda. Que descubra o que faz um candidato e que não se permita ser usado pelas classes conservadoras e oportunistas basileiras.Não se trata de discriminar o analfabeto, mas de avaliar as reais capacidades intelectuais de gestão de um cargo público tão exigente quanto ao que o palhaço se candidata. Caso ele não saiba ler, que antes o aprenda. Que descubra o que faz um candidato e que não se permita ser usado pelas classes conservadoras e oportunistas basileiras.

domingo, 12 de setembro de 2010

POLÍTICA, DEMOCRACIA E FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO



Eu defendo a liberdade política e religiosa, próprias da democracia. No entanto, o vídeo acima, que está sendo disseminado na internet, é absolutamente absurdo. Primeiro que a maioria absoluta da igreja católica (inclusive da CNBB), embora com críticas, tem apoiado com firmeza o governo Lula, que o foi o melhor que já existiu e o único que tirou mais 20 milhões de pessoas da miséria. Ao veicular esta tipo de vídeo, o que fazemos é somente favorecer o candidato que apoia as grandes empresas e as classes dominantes deste país, que o governam desde a conquista violenta feita pelos europeus, inclusive com o aval da Igreja católica. Não é difícil perceber que historicamente a Igreja católica esteve ao lado dos dominantes, desde o período medieval, embora atualmente a CNBB sabiamente apoia os grupos políticos que defendem o fim da miséria e a igualdade social.

Não sei se vc sabe mas a raiz do aborto esta na condição social indigna de miséria. Uma pessoa que tem condições materias e humanas de criar um filho com amor jamais desejará fazer um aborto.
Vc também deveria saber que o José Serra é apoiado pelas grandes empresas, pela rede globo e pela grande imprensa. Também deve saber que não são as propostas de campanha que serão efetivadas. Na verdade, o presidente eleito deverá devolver aos grupos que o apoiram as benesses do seu governos. O que o FHC fez, e o Serra continuará fazendo, caso eleito, é entregar nossa país as grandes multinacionais. E isso não significará apenas a morte de fetos, mas a desgraça de um país inteiro, com redução de salários, enriquecimento das grandes empresas e degração do meio ambiente. Deste modo, pergunto, o Serra ao fazer um falso discurso contra o aborto, por acaso é a favor da vida?
Sim, ele é a favor dos empresários que financiam a campanha dele e dos seus comparsas. Imagina quantas vidas podem ser abortadas aos poucos durante toda a vida sem água para beber, comida para comer ou uma cama para dormir? o que será duma criança que nasce numa favela, cujo pai é traficante e a mãe é desnutrida e prostituta?
Aí encontra-se a raiz do problema.

Não se trata, aqui de ser a favor do aborto, sou absolutamente contra. Trata-se de defender uma sociedade democrática que busque a igualdade social, o fim da fome dos vivos.
Depois, é absolutamente homofóbico, preconceituoso e autoritário querer impor aos homessexuais que cumpra as regras religiosas. As igrejas tem total liberdade para defender seus ideiais, mas é um verdadeiro crime querer impor isso a quem não acredita ou não tem essa doutrina como verdade. Por acaso alguma Igreja tem o testamento de Deus dizendo o que é e o que não é verdade?
eu acredito que um homossexul sincero e com caráter teria maior espaço nos braços de Jesus do que religiosos fanáticos, fundamentalistas e hipócritas.
Qual mal há em amar outro ser humano, a não ser ferir o orgulho machista de alguns fundamentalismos.

Mas, se seguirmos a linha deste vídeo, devemos abrir mão de 8 anos de avanço no emprego, na moradia, na educação, na saúde para retroceder a um governo cuja princial bandeira é defender os interesses das grandes empresas internacionais orquestradas pelo EUA.

Se existe algum projeto político que defende a vida, certamente não é o projeto tucano. Basta olhar como os professores foram recepcionados por Serra, quando da legitima luta por melhores salários.

Olha, teço muitas críticas ao governo Lula, mas porque penso que temos que avançar na distribuição de renda, na reforma agrária, na ampliação do acesso a universidade e na educação de qualidade, e no aprofundamento da democracia, e não porque desejo retrocedor ao projeto das classes dominantes brasileiras, representadas por José serra.

Engraçado, por que algumas denominaçoes religiosas se preocupam tanto com o aborto, e não se preocupam com as milhares de crianças que são estupradas todos os dias? por que não se preocupam com os milhões de desempregados? por que não se preocupam com a concentração de terra absurda neste país? por que não re preocupam com o trabalho escravo infantil e adulto que existe neste países? por que não se preocupam com a concentração de riquezas, inclusive nas mãos de empresas administradas por religiosos?

Isso é obvio. Se preocupar com essas questões significa fim de vultosas doaçoes às igrejas. Significa perda de fiéis entre as classes dominantes e, consequente, perda de poder.

A única religão verdadeira só pode ser aquela que defende a vida, a igualdade social, a partilha dos bens. Só pode haver religião verdadeira se esta optar pelos excluídos, pelos deserdados da terra, pelos injustiçados, pelos pobres, pelos oprimidos, desde a sua concepão até o final da sua vida. Não foi isso que Jesus fez a vida toda?

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Chico Buarque - Funeral de um lavrador

É A PARTE QUE TE CABE NESTE LATIFÚNDIO
















Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto
O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.

Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.




ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO
UM DEFUNTO NUMA REDE,
AOS GRITOS DE "Ó IRMÃOS DAS ALMAS!
IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU
QUEM MATEI NÃO!"


— A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.
— A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
— E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
— Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
— E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?
— Onde a caatinga é mais seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.
— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
— Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.
— E o que guardava a emboscada,
irmão das almas
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
— Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mas garantido é de bala,
mais longe vara.
— E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?
— Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.
— E o que havia ele feito
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?
— Ter um hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.
— Mas que roças que ele tinha,
irmãos das almas
que podia ele plantar
na pedra avara?
— Nos magros lábios de areia,
irmão das almas,
os intervalos das pedras,
plantava palha.
— E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
— Tinha somente dez quadras,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.
— Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?
— Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.
— E agora o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?
— Mais campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.
— E onde o levais a enterrar,
irmãos das almas,
com a semente do chumbo
que tem guardada?
— Ao cemitério de Torres,
irmão das almas,
que hoje se diz Toritama,
de madrugada.
— E poderei ajudar,
irmãos das almas?
vou passar por Toritama,
é minha estrada.
— Bem que poderá ajudar,
irmão das almas,
é irmão das almas quem ouve
nossa chamada.
— E um de nós pode voltar,
irmão das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.
— Vou eu que a viagem é longa,
irmãos das almas,
é muito longa a viagem
e a serra é alta.
— Mais sorte tem o defunto
irmãos das almas,
pois já não fará na volta
a caminhada.
— Toritama não cai longe,
irmãos das almas,
seremos no campo santo
de madrugada.
— Partamos enquanto é noite
irmãos das almas,
que é o melhor lençol dos mortos
noite fechada.


O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR POR SEU GUIA, O RIO CAPIBARIBE, CORTOU COM O VERÃO



—— Antes de sair de casa
aprendi a ladainha
das vilas que vou passar
na minha longa descida.
Sei que há muitas vilas grandes,
cidades que elas são ditas
sei que há simples arruados,
sei que há vilas pequeninas,
todas formando um rosário
cujas contas fossem vilas,
de que a estrada fosse a linha.
Devo rezar tal rosário
até o mar onde termina,
saltando de conta em conta,
passando de vila em vila.
Vejo agora: não é fácil
seguir essa ladainha
entre uma conta e outra conta,
entre uma e outra ave-maria,
há certas paragens brancas,
de planta e bicho vazias,
vazias até de donos,
e onde o pé se descaminha.
Não desejo emaranhar
o fio de minha linha
nem que se enrede no pêlo
hirsuto desta caatinga.
Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.
Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no verão também corta,
com pernas que não caminham.
Tenho que saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
Mas não vejo almas aqui,
nem almas mortas nem vivas
ouço somente à distância
o que parece cantoria.
Será novena de santo,
será algum mês-de-Maria
quem sabe até se uma festa
ou uma dança não seria?



NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA,
VAI PARODIANDO A PALAVRAS DOS CANTADORES



—— Finado Severino,
quando passares em Jordão
e o demônios te atalharem
perguntando o que é que levas..
—— Dize que levas cera,
capuz e cordão
mais a Virgem da Conceição.
—— Finado Severino,
etc...
—— Dize que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.
—— Finado Severino,
etc...
—— Dize que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves.
—— Uma excelência
dizendo que a hora é hora.
—— Ajunta os carregadores
que o corpo quer ir embora.
—— Duas excelências...
—— ... dizendo é a hora da plantação.
—— Ajunta os carreadores...
—— ... que a terra vai colher a mão.




CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA
INTERROMPÊ-LA POR UNS INSTANTES
E PROCURAR TRABALHO ALI ONDE SE ENCONTRA.



—— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).
Penso agora: mas por que
parar aqui eu não podia
e como Capibaribe
interromper minha linha?
ao menos até que as águas
de uma próxima invernia
me levem direto ao mar
ao refazer sua rotina?
Na verdade, por uns tempos,
parar aqui eu bem podia
e retomar a viagem
quando vencesse a fadiga.
Ou será que aqui cortando
agora minha descida
já não poderei seguir
nunca mais em minha vida?
(será que a água destes poços
é toda aqui consumida
pelas roças, pelos bichos,
pelo sol com suas línguas?
será que quando chegar
o rio da nova invernia
um resto de água no antigo
sobrará nos poços ainda?)
Mas isso depois verei:
tempo há para que decida
primeiro é preciso achar
um trabalho de que viva.
Vejo uma mulher na janela,
ali, que se não é rica,
parece remediada
ou dona de sua vida:
vou saber se de trabalho
poderá me dar notícia.

DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS, DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ



—— Muito bom dia senhora,
que nessa janela está
sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?
—— Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?
—— Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.
—— Isso aqui de nada adianta,
poucos existe o que lavrar
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia por lá?
—— Também lá na minha terra
de terra mesmo pouco há
mas até a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.
—— Também de pouco adianta,
nem pedra há aqui que amassar
diga-me ainda, compadre,
que mais fazias por lá?
—— Conheço todas as roças
que nesta chã podem dar
o algodão, a mamona,
a pita, o milho, o caroá.
—— Esses roçados o banco
já não quer financiar
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia lá?
—— Melhor do que eu ninguém
sei combater, quiçá,
tanta planta de rapina
que tenho visto por cá.
—— Essas plantas de rapina
são tudo o que a terra dá
diga-me ainda, compadre
que mais fazia por lá?
—— Tirei mandioca de chãs
que o vento vive a esfolar
e de outras escalavras
pela seca faca solar.
—— Isto aqui não é Vitória
nem é Glória do Goitá
e além da terra, me diga,
que mais sabe trabalhar?
—— Sei também tratar de gado,
entre urtigas pastorear
gado de comer do chão
ou de comer ramas no ar.
—— Aqui não é Surubim
nem Limoeiro, oxalá!
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?
—— Em qualquer das cinco tachas
de um bangüê sei cozinhar
sei cuidar de uma moenda,
de uma casa de purgar.
—— Com a vinda das usinas
há poucos engenhos já
nada mais o retirante
aprendeu a fazer lá?
—— Ali ninguém aprendeu
outro ofício, ou aprenderá
mas o sol, de sol a sol,
bem se aprende a suportar.
—— Mas isso então será tudo
em que sabe trabalhar?
vamos, diga, retirante,
outras coisas saberá.
—— Deseja mesmo saber
o que eu fazia por lá?
comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trabalhar.
—— Essa vida por aqui
é coisa familiar
mas diga-me retirante,
sabe benditos rezar?
sabe cantar excelências,
defuntos encomendar?
sabe tirar ladainhas,
sabe mortos enterrar?
—— Já velei muitos defuntos,
na serra é coisa vulgar
mas nunca aprendi as rezas,
sei somente acompanhar.
—— Pois se o compadre soubesse
rezar ou mesmo cantar,
trabalhávamos a meias,
que a freguesia bem dá.
—— Agora se me permite
minha vez de perguntar:
como senhora, comadre,
pode manter o seu lar?
—— Vou explicar rapidamente,
logo compreenderá:
como aqui a morte é tanta,
vivo de a morte ajudar.
—— E ainda se me permite
que volte a perguntar:
é aqui uma profissão
trabalho tão singular?
—— é, sim, uma profissão,
e a melhor de quantas há:
sou de toda a região
rezadora titular.
—— E ainda se me permite
mais outra vez indagar:
é boa essa profissão
em que a comadre ora está?
—— De um raio de muitas léguas
vem gente aqui me chamar
a verdade é que não pude
queixar-me ainda de azar.
—— E se pela última vez
me permite perguntar:
não existe outro trabalho
para mim nesse lugar?
—— Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar
não se precisa de limpa,
as estiagens e as pragas
fazemos mais prosperar
e dão lucro imediato
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.




O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA
MATA, QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ,
EM INTERROMPER A VIAGEM.



—— Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quando mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nesta terra que diziam.
Como ela é uma terra doce
para os pés e para a vista.
Os rios que correm aqui
têm água vitalícia.
Cacimbas por todo lado
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.
Mas não avisto ninguém,
só folhas de cana fina
somente ali à distância
aquele bueiro de usina
somente naquela várzea
um bangüê velho em ruína.
Por onde andará a gente
que tantas canas cultiva?
Feriando: que nesta terra
tão fácil, tão doce e rica,
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.
Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina
e aquele cemitério ali,
branco de verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.




ASSISTE AO ENTERRO DE UM
TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE
DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O
LEVARAM AO CEMITÉRIO



—— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
—— é de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.
—— Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
—— é uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
—— é uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
—— é uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.


—— Viverás, e para sempre
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
—— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
—— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
—— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
—— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
—— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
—— Será de terra
tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
—— Será de terra
e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
—— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
—— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
—— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
—— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.


—— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
—— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo)
—— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
—— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
—— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos)
—— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).


—— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
—— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
—— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
—— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
—— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
—— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.


—— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
—— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
—— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
—— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.


—— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
—— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
—— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha,
—— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.


—— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
—— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito à viração.
—— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
—— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
—— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
—— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com que se dorme.



O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS
PASSOS PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE
—— Nunca esperei muita coisa,
digo a Vossas Senhorias.
O que me fez retirar
não foi a grande cobiça
o que apenas busquei
foi defender minha vida
de tal velhice que chega
antes de se inteirar trinta
se na serra vivi vinte,
se alcancei lá tal medida,
o que pensei, retirando,
foi estendê-la um pouco ainda.
Mas não senti diferença
entre o Agreste e a Caatinga,
e entre a Caatinga e aqui a Mata
a diferença é a mais mínima.
Está apenas em que a terra
é por aqui mais macia
está apenas no pavio,
ou melhor, na lamparina:
pois é igual o querosene
que em toda parte ilumina,
e quer nesta terra gorda
quer na serra, de caliça,
a vida arde sempre com
a mesma chama mortiça.
Agora é que compreendo
por que em paragens tão ricas
o rio não corta em poços
como ele faz na Caatinga:
vivi a fugir dos remansos
a que a paisagem o convida,
com medo de se deter,
grande que seja a fadiga.
Sim, o melhor é apressar
o fim desta ladainha,
o fim do rosário de nomes
que a linha do rio enfia
é chegar logo ao Recife,
derradeira ave-maria
do rosário, derradeira
invocação da ladainha,
Recife, onde o rio some
e esta minha viagem se fina.




CHEGANDO AO RECIFE O
RETIRANTE SENTA-SE PARA DESCANSAR
AO PÉ DE UM MURO ALTO E
CAIADO E OUVE, SEM SER NOTADO,
A CONVERSA DE DOIS COVEIROS


—— O dia hoje está difícil
não sei onde vamos parar.
Deviam dar um aumento,
ao menos aos deste setor de cá.
As avenidas do centro são melhores,
mas são para os protegidos:
há sempre menos trabalho
e gorjetas pelo serviço
e é mais numeroso o pessoal
(toma mais tempo enterrar os ricos).
—— pois eu me daria por contente
se me mandassem para cá.
Se trabalhasses no de Casa Amarela
não estarias a reclamar.
De trabalhar no de Santo Amaro
deve alegrar-se o colega
porque parece que a gente
que se enterra no de Casa Amarela
está decidida a mudar-se
toda para debaixo da terra.
—— é que o colega ainda não viu
o movimento: não é o que se vê.
Fique-se por aí um momento
e não tardarão a aparecer
os defuntos que ainda hoje
vão chegar (ou partir, não sei).
As avenidas do centro,
onde se enterram os ricos,
são como o porto do mar
não é muito ali o serviço:
no máximo um transatlântico
chega ali cada dia,
com muita pompa, protocolo,
e ainda mais cenografia.
Mas este setor de cá
é como a estação dos trens:
diversas vezes por dia
chega o comboio de alguém.
—— Mas se teu setor é comparado
à estação central dos trens,
o que dizer de Casa Amarela
onde não para o vaivém?
Pode ser uma estação
mas não estação de trem:
será parada de ônibus,
com filas de mais de cem.
—— Então por que não pedes,
já que és de carreira, e antigo,
que te mandem para Santo Amaro
se achas mais leve o serviço?
Não creio que te mandassem
para as belas avenidas
onde estão os endereços
e o bairro da gente fina:
isto é, para o bairro dos usineiros,
dos políticos, dos banqueiros,
e no tempo antigo, dos bangunlezeiros
(hoje estes se enterram em carneiros)
bairro também dos industriais,
dos membros das
associações patronais
e dos que foram mais horizontais
nas profissões liberais.
Difícil é que consigas
aquele bairro, logo de saída.
—— Só pedi que me mandasse
para as urbanizações discretas,
com seus quarteirões apertados,
com suas cômodas de pedra.
—— Esse é o bairro dos funcionários,
inclusive extranumerários,
contratados e mensalistas
(menos os tarefeiros e diaristas).
Para lá vão os jornalistas,
os escritores, os artistas
ali vão também os bancários,
as altas patentes dos comerciários,
os lojistas, os boticários,
os localizados aeroviários
e os de profissões liberais
que não se libertaram jamais.
—— Também um bairro dessa gente
temos no de Casa Amarela:
cada um em seu escaninho,
cada um em sua gaveta,
com o nome aberto na lousa
quase sempre em letras pretas.
Raras as letras douradas,
raras também as gorjetas.
—— Gorjetas aqui, também,
só dá mesmo a gente rica,
em cujo bairro não se pode
trabalhar em mangas de camisa
onde se exige quepe
e farda engomada e limpa.
—— Mas não foi pelas gorjetas, não,
que vim pedir remoção:
é porque tem menos trabalho
que quero vir para Santo Amaro
aqui ao menos há mais gente
para atender a freguesia,
para botar a caixa cheia
dentro da caixa vazia.
—— E que disse o Administrador,
se é que te deu ouvido?
—— Que quando apareça a ocasião
atenderá meu pedido.
—— E do senhor Administrador
isso foi tudo que arrancaste?
—— No de Casa Amarela me deixou
mas me mudou de arrabalde.
—— E onde vais trabalhar agora,
qual o subúrbio que te cabe?
—— Passo para o dos industriários,
que também é o dos ferroviários,
de todos os rodoviários
e praças-de-pré dos comerciários.
—— Passas para o dos operário,
deixas o dos pobres vários
melhor: não são tão contagiosos
e são muito menos numerosos.
—— é, deixo o subúrbio dos indigentes
onde se enterra toda essa gente
que o rio afoga na preamar
e sufoca na baixa-mar.
—— é a gente sem instituto,
gente de braços devolutos
são os que jamais usam luto
e se enterram sem salvo-conduto.
—— é a gente dos enterros gratuitos
e dos defuntos ininterruptos.
—— é a gente retirante
que vem do Sertão de longe.
—— Desenrolam todo o barbante
e chegam aqui na jante.
—— E que então, ao chegar,
não tem mais o que esperar.
—— Não podem continuar
pois têm pela frente o mar.
—— Não têm onde trabalhar
e muito menos onde morar.
—— E da maneira em que está
não vão ter onde se enterrar.
—— Eu também, antigamente,
fui do subúrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha
pois bem: quando sua morte chega,
temos que enterrá-los em terra seca.
—— Na verdade, seria mais rápido
e também muito mais barato
que os sacudissem de qualquer ponte
dentro do rio e da morte.
—— O rio daria a mortalha
e até um macio caixão de água
e também o acompanhamento
que levaria com passo lento
o defunto ao enterro final
a ser feito no mar de sal.
—— E não precisava dinheiro,
e não precisava coveiro,
e não precisava oração
e não precisava inscrição.
—— Mas o que se vê não é isso:
é sempre nosso serviço
crescendo mais cada dia
morre gente que nem vivia.
—— E esse povo de lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando
cemitério esperando.
—— Não é viagem o que fazem
vindo por essas caatingas, vargens
aí está o seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro.



O RETIRANTE APROXIMA-SE DE
UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE

—— Nunca esperei muita coisa,
é preciso que eu repita.
Sabia que no rosário
de cidade e de vilas,
e mesmo aqui no Recife
ao acabar minha descida,
não seria diferente
a vida de cada dia:
que sempre pás e enxadas
foices de corte e capina,
ferros de cova, estrovengas
o meu braço esperariam.
Mas que se este não mudasse
seu uso de toda vida,
esperei, devo dizer,
que ao menos aumentaria
na quartinha, a água pouca,
dentro da cuia, a farinha,
o algodãozinho da camisa,
ao meu aluguel com a vida.
E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.
A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia:
caixão macio de lama,
mortalha macia e líquida,
coroas de baronesa
junto com flores de aninga,
e aquele acompanhamento
de água que sempre desfila
(que o rio, aqui no Recife,
não seca, vai toda a vida).




APROXIMA-SE DO RETIRANTE O
MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS
QUE EXISTEM ENTRE O CAIS
E A ÁGUA DO RIO


—— Seu José, mestre carpina,
que habita este lamaçal,
sabes me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabe me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?
—— Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.
—— Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muito água:
basta que chega o abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.
—— Severino, retirante
pois não sei o que lhe conte
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.
—— Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?
—— Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço
sei que a miséria é mar largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.
—— Seu José, mestre carpina,
e quando é fundo o perau?
quando a força que morreu
nem tem onde se enterrar,
por que ao puxão das águas
não é melhor se entregar?
—— Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque senão ele alarga
e devasta a terra inteira.
—— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
—— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.
—— Seu José, mestre carpina,
e que diferença faz
que esse oceano vazio
cresça ou não seus cabedais
se nenhuma ponte mesmo
é de vencê-lo capaz?
—— Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?
—— Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.
—— Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
—— Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
—— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?



UMA MULHER, DA PORTA DE
ONDE SAIU O HOMEM,
ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ


—— Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito
e estais aí conversando
pois sabeis que ele é nascido.




APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO
HOMEM VIZINHOS,
AMIGOS, DUAS CIGANAS, ETC



—— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
Foi por ele que a maré
esta noite não baixou.
—— Foi por ele que a maré
fez parar o seu motor:
a lama ficou coberta
e o mau-cheiro não voou.
—— E a alfazema do sargaço,
ácida, desinfetante,
veio varrer nossas ruas
enviada do mar distante.
—— E a língua seca de esponja
que tem o vento terral
veio enxugar a umidade
do encharcado lamaçal.


—— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.
—— Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar.
—— E a banda de maruins
que toda noite se ouvia
por causa dele, esta noite,
creio que não irradia.
—— E este rio de água, cega,
ou baça, de comer terra,
que jamais espelha o céu,
hoje enfeitou-se de estrelas.




COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS
TRAZENDO PRESENTES PARA
O RECÉM-NASCIDO
COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO
PRESENTES PARA
O RECÉM-NASCIDO



—— Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
—— Minha pobreza tal é
que coisa alguma posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar
aqui todos são irmãos,
de leite, de lama, de ar.
—— Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago este papel de jornal
para lhe servir de cobertor
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
—— Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d'água de Lagoa do Cerro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.


—— Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta sorrindo e de estalo.
—— Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.
—— Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.
—— Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.


—— Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
—— Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.
—— Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
—— Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.


—— Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
—— Siris apanhados no lamaçal
que já no avesso da rua Imperial.
—— Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
—— Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.




FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM
APARECIDO COM OS VIZINHOS



—— Atenção peço, senhores,
para esta breve leitura:
somos ciganas do Egito,
lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas
que desde já posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprenderá a engatinhar
por aí, com aratus,
aprenderá a caminhar
na lama, como goiamuns,
e a correr o ensinarão
o anfíbios caranguejos,
pelo que será anfíbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
na ilha do Maruim,
vestido negro de lama,
voltar de pescar siris
e vejo-o, ainda maior,
pelo imenso lamarão
fazendo dos dedos iscas
para pescar camarão.


—— Atenção peço, senhores,
também para minha leitura:
também venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
é necessário que eu diga:
não ficará a pescar
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas
não pensem que a vida dele
há de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que é a vida do homem de ofício,
bem mais sadia que os mangues,
tenha embora precipícios.
Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.




FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE
VIERAM COM PRESENTES, ETC



—— De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
—— De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
—— Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.
—— Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.


—— De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
—— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.
—— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.
—— De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.


—— é tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
—— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
—— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
—— é tão belo como as ondas
em sua adição infinita.


—— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
—— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
—— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
—— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.


—— E belo porque o novo
todo o velho contagia.
—— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
—— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
—— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.




O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE
ESTEVE DE FORA,
SEM TOMAR PARTE DE NADA



—— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.


E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
Fim